| A Quaresma e a Alegria do Encontro |
| Terça, 16 Fevereiro 2010 21:38 |
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CRÓNICA - PE. ISILDO SILVA A QUARESMA, UMA EXPERIÊNCIA DE DESERTO E A ALEGRIA DO ENCONTRO A liturgia da quarta-feira de cinzas é bem elucidativa daquilo que deve ser não só a caminhada quaresmal mas a própria vida do cristão e que, aliás, marca o início da vida pública de Jesus, segundo o Evangelho de Marcos: “Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.” (Mc 1,14-15). Esta é a maravilhosa aventura que temos pela frente se quisermos viver a quaresma na perspectiva do anúncio que nos é feito por Jesus.
UM CONCEITO DETURPADO DA QUARESMA
A verdade, porém, é que a mentalidade que conservamos em relação ao tempo litúrgico da quaresma não é das mais simpáticas, nem das mais agradáveis e atraentes. Fixamo-nos demasiado naquilo que ela apresenta de mortificação, de renúncia, de sacrifício e de dor; é viver a quaresma pela negativa. O caminho que nos prepara para a celebração pascal não tem, necessariamente, que ser esse. Limitar a quaresma a essa realidade é empobrecer a riqueza e a graça que é, para cada um de nós, este tempo litúrgico.
Só para termos uma ideia desta realidade, seria como se limitássemos o ciclo da vida duma planta ao tempo do Inverno, à poda ou à sementeira. Sem dúvida que estas etapas da vida da planta são fundamentais; mas elas não são fim; apontam, isso, sim, para uma meta: a floração, a chegada dos frutos e a maturação dos mesmos.
A bênção e a imposição das cinzas, a renúncia, o sacrifício, o jejum, a abstinência, a cor rocha da liturgia, o jejum e a esmola, as celebrações litúrgicas da Via-Sacra ou do enterro do Senhor não são fins em si mesmos mas caminho para atingir a meta que nos propomos. O sacrifício, o sofrimento, a dor, o martírio podem fazer parte da vida mas não são a vida. Percorrer esse caminho é encaixotar-nos no drama da dor. Isso seria masoquismo e não mistério de redenção. Mesmo que o mistério da cruz e da dor possam, inevitavelmente, fazer parte da história pessoal de cada homem, é necessário olharmos para este tempo com outros olhos.
Antes de mais, porquê quarenta dias? Como acontece com outros números na Sagrada Escritura, também este é simbólico e constitui, sem dúvida, uma referência aos quarenta dias que demorou o dilúvio, aos quatrocentos anos que Israel permaneceu no Egipto, aos quarenta anos que demorou a caminhada dos israelitas da terra de escravidão para a terra prometida e, sobretudo, aos quarenta dias que Jesus passou no deserto, antes de iniciar a sua vida pública. Este período de quarenta dias, aplicado à quaresma, como preparação para a Páscoa, tem início por volta do ano 350.
Quanto maior é a festa, tanto maior é a preparação. E que maior festa do que a Páscoa? Jesus, na realidade do mistério pascal, acaba por ser a resposta definitiva e cabal para as inquietações que tanto perturbam o homem, sobre o sentido do sofrimento, da dor e da morte. Unido a Cristo, e só a Ele, a vida do homem não desemboca na experiência da morte mas na certeza da ressurreição.
A QUARESMA, UMA CAMINHADA PARA O DESERTO
A quaresma é, por isso mesmo, um convite lançado a cada baptizado para aceitar o desafio de penetrar, também ele, numa experiência de deserto. Como fazê-lo? O deserto é o tempo da provação mas é, sobretudo, o tempo da graça, do encanto, do enamoramento, tal como diz o Senhor ao povo de Israel, através do profeta Oseias, comparando-o com uma mulher infiel: “É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração.” (Os 2,16) O deserto é, então, o tempo da crise mas é, sobretudo, o tempo do amor. O deserto é o tempo da provação mas é, particularmente, o tempo da vida nova e da graça. O deserto é o tempo da infidelidade de Israel mas é, fundamentalmente, o tempo do amor de Javé ao seu povo. O deserto é o tempo do pecado mas é, antes de mais, o tempo da purificação e do regresso ao primeiro amor, que é Deus.
A SURPRESA DE DEUS
O deserto não é, portanto, esse espaço povoado de areias e de demónios. O deserto é, sobretudo, o espaço interior de cada pessoa, esse mundo fantástico onde Deus e o homem se encontram. Deus nunca é aquele que Se esconde mas aquele que Se revela. E quanto Ele gosta de ficar perto de nós! Assim se exprime a sabedoria, referindo-se à Criação: “Eu estava com Ele como arquitecto, e era o seu encanto, todos os dias, brincando continuamente em sua presença; brincava sobre a superfície da Terra, e as minhas delícias é estar junto dos seres humanos.” (Pr 8,30-31)
O deserto deve ser a surpresa agradável não daquilo que deixámos mas daquilo que encontrámos. A oração, o jejum e a esmola de nada servirão se não nos abrirem caminhos de esperança, se não transformarem as sombras e as trevas da vida em luz, se não ajudarem o homem a passar da morte para a vida. O jejum e a abstinência não perderam actualidade e não são práticas obsoletas. O quanto elas poderão fazer bem à pessoa se bem orientadas, não como fim, mas como caminho para o grande acontecimento da Páscoa!
PROPOSTAS PARA A QUARESMA
Jejum: Que tal, apostar no jejum da televisão, da internet, do computador, do desporto, substituindo-os por mais tempo para o diálogo na família, pelo convívio com os amigos, pela visita àqueles que se encontram sós e acamados? Que tal, consumir menos para partilhar mais? Porque tudo recebemos de Deus, seremos mais felizes quando partilharmos o que somos e o que temos com os mais pobres.
Oração: Quem sabe? Talvez mudar o estilo de relação que mantemos com Deus. Mais do que apostar no muito que temos para dizer, dar mais tempo à escuta da Palavra, descobrir que Deus também deve ter muito para dizer-nos a nós. Não valerá a pena encontrar Deus na igreja mas encontrá-l’O também na rua, entre os pequeninos, os pobres, os drogados, os alcoólicos, os seropositivos, os sem-tecto, os desempregados?
Esmola: Mais do que dar, dar-se. Oferecer a esmola dum sorriso, duma palavra amiga, duma visita a alguém que se encontra mais só.
No deserto, onde não há nada, Deus oferece-nos tudo: o pão, á água, a carne. Mas, sobretudo, Deus oferece-se a Si próprio.
Que a Quaresma seja, fundamentalmente o tempo da vida, porque encontro com a Vida que é Deus.
Que a Quaresma seja tempo de libertação interior, porque a provação não é castigo mas proposta de vida nova.
Que a Quaresma seja tempo de alegria, porque ela torna presente aquele que dá sentido à nossa vida.
Que a Quaresma seja tempo para descobrir o amor daquele que, “tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até ao fim” (cf Jo 13,1).
E Ele continua a amar-nos. Pe. Isildo Gomes da Silva Sagrado Coração de Jesus |